
Sancionada em 7 de agosto de 2006, legislação revolucionou o enfrentamento à violência doméstica no Brasil, ampliou a proteção às vítimas e se tornou referência internacional
Há exatos 20 anos, em 7 de agosto de 2006, o Brasil dava um passo decisivo no enfrentamento à violência contra a mulher com a sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Criada para prevenir, punir e erradicar a violência doméstica e familiar, a legislação é considerada um dos maiores avanços na garantia dos direitos das mulheres e tornou-se referência internacional na proteção das vítimas.
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A lei surgiu após décadas de mobilização de movimentos de defesa dos direitos das mulheres e foi impulsionada pela história de luta da farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à legislação após sobreviver a duas tentativas de feminicídio praticadas pelo então marido.

A história que mudou a legislação brasileira
Em maio de 1983, Maria da Penha foi baleada enquanto dormia. O agressor, seu marido à época, alegou que o crime havia sido resultado de um assalto, versão posteriormente desmentida pelas investigações. O ataque deixou Maria da Penha paraplégica.
Meses depois, ainda em recuperação, ela sofreu uma nova tentativa de homicídio. O marido tentou eletrocutá-la durante o banho. Após anos de violência física e psicológica, Maria da Penha conseguiu romper o relacionamento e iniciou uma longa batalha judicial para responsabilizar o agressor.
Apesar das provas, o processo se arrastou por quase duas décadas. Em razão da demora da Justiça brasileira, o caso foi levado, em 1998, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 2001, o Brasil foi responsabilizado internacionalmente por negligência, omissão e demora no enfrentamento da violência doméstica.
A condenação internacional pressionou o Estado brasileiro a adotar medidas efetivas de proteção às mulheres, culminando na criação da Lei Maria da Penha.
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O que estabelece a Lei Maria da Penha
A legislação inovou ao reconhecer que a violência contra a mulher não se limita às agressões físicas. A norma define cinco formas de violência doméstica e familiar:
- Violência física;
- Violência psicológica;
- Violência sexual;
- Violência patrimonial;
- Violência moral.
Além da definição dos diferentes tipos de violência, a lei passou a prever mecanismos de proteção às vítimas, como a concessão de medidas protetivas de urgência, o afastamento imediato do agressor do convívio com a vítima, a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e o fortalecimento da rede de atendimento especializada.
A legislação também estabelece que a violência doméstica constitui uma violação dos direitos humanos, reforçando o dever do Estado em prevenir, investigar e punir esse tipo de crime.
Impacto ao longo de duas décadas
Desde sua entrada em vigor, a Lei Maria da Penha modificou a forma como o Brasil enfrenta a violência de gênero. A legislação ampliou o acesso das vítimas à Justiça, fortaleceu as políticas públicas de proteção e contribuiu para que milhares de mulheres denunciassem situações de violência.
Ao longo desses 20 anos, novas normas passaram a complementar a proteção às mulheres, como a Lei do Feminicídio, sancionada em 2015, e outras alterações legislativas que ampliaram as medidas protetivas e endureceram a punição aos agressores.
Especialistas, no entanto, ressaltam que o combate à violência contra a mulher ainda representa um dos principais desafios do país. Casos de feminicídio, agressões, ameaças, violência psicológica e patrimonial continuam sendo registrados diariamente, evidenciando a necessidade de fortalecer as políticas públicas, ampliar a rede de atendimento e incentivar a denúncia.
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Símbolo de resistência
A trajetória de Maria da Penha transformou uma história marcada pela violência em um símbolo da luta pelos direitos das mulheres. Hoje, aos 81 anos, ela segue atuando na conscientização sobre o enfrentamento à violência doméstica por meio do Instituto Maria da Penha, criado em 2009.
Duas décadas após sua criação, a Lei Maria da Penha permanece como um dos mais importantes instrumentos legais de proteção às mulheres brasileiras, reafirmando que a violência doméstica não é um problema privado, mas uma grave violação dos direitos humanos que deve ser combatida por toda a sociedade.